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  • Pascoal Maynard

Texto extraído do livro "Propriaenses | Alegrias e Tristesse


A menina e o piano


Morar em Propriá nos anos 50 e não ter em casa um instrumento musical era raro. Andar por suas ruas e não ouvir sons de pianos, acordeons, ou cantorias vindas do interior das casas, impossível. Casa de família tinha que ter instrumento musical, quando não, radinhos de pilha ou radiolas. A cidade era musical. Fazia parte dos costumes ter artistas na família. Almoços dominicais sempre terminavam em cantorias, meio a brincadeiras e risadas, acompanhadas do batucar dos .dedos, ou com os talheres servindo de percussão. Corais familiares sob aplausos daqueles que apenas assistiam. Tudo valia. Músicas antgas que marcassem épocas ou momentos felizes, músicas de outros lugares, do interior ou até mesmo de outros países, modinhas populares, temas de novelas de rádio, músicas ouvidas em shows, músicas dos cantores preferidos dos donos da casa, ou de cantores prediletos dos seus filhos, músicas clássicas, até.

Enfim, conforme fosse o humor do dia, a música estava presente nas famílias de Propriá, e, se essas famílias dispusessem de um instrumento musical, maravilha!

Influenciada por esse costume, minha família me matriculou, aos sete anos, na escola de música da maestrina Odette Silva, a mais conhecida professora de piano do baixo São Francisco. Professora, Arranjadora, Compositora, Diretora de espetáculos de canto e dança, Era, como habitualmente se diz, mulher dos sete instrumentos.

E lá fui eu, estudar piano. Lembro-me do primeiro dia, onde ao chegar em sua casa impecável, notei um entra e sai de alunas e alunos, tanto da cidade como de cidades vizinhas, havia gente de Porto Real de Colégio, Penedo, Pão de Açúcar, Gararu, e tantas outras. Fui apresentada aos pianos, eram dois, um na sala de visitas, exclusivo para a professora e alguns alunos adiantados, ou suas aparentadas, e outro, na sala de jantar, este servia a todos os demais. Imaginem a minha admiração ao ter meu primeiro contato com as teclas de um piano. Saber que a partir daquela data, podia tocar em todas elas, as brancas e as pretas, todas, e eram muitas! Fiquei sabendo, dentre outras coisas, que as teclas pretas, sustenidos e bemóis, eram feitas de uma madeira escura, chamada ébano, originária da África. A professora me permitiu sentar num banquinho estranho, redondo, que girava, para assim se adaptar à altura dos alunos. Tudo aquilo era novidade para mim. Soube também, que piano é um instrumento de percussão que funciona a partir do toque nas suas teclas. Desse modo, acionam martelinhos, recobertos com feltro, escondidos no seu interior, e afixados por parafusos a uma trave de madeira ou metal, chamada cepo, horizontalmente presa, que sustenta todas as cordas responsáveis pelo som do instrumento. Essa foi uma das muitas e muitas aulas que se sucederam. Havia também, um instrumento chamado diapasão, que ajudava nas afinações das notas, e era a professora mesmo, quem fazia este serviço com a ajuda de uma simples chave de fendas. Seus pianos eram tipo armário, como a maioria dos pianos de Propriá. Não lembro de ter visto um piano de cauda naqueles tempos. A maioria importados da Alemanha e da Inglaterra.

Nessa época, eu morava na então chamada rua da capela, lado norte da cidade, oposto ao bairro onde ficava a escola de música, que era a então rua da Vitória. Percorria a distância a pé, acompanhada da minha babá, Helena, minha companheira, que levava consigo, numa sacola caprichosamente feita por minha mãe os livros de estudo para piano, chamados de "Métodos, os métodos Czerny" - continham as escalas musicais, para exercitar :s dedos na leitura das notas. Lá íamos nós e meus métodos, dos quais muito me orgulhava e fazia questão de mostrá-los a minhas amigas. Sol escaldante, ou chuvas torrenciais. Sim, porque Propriá é assim mesmo, ou calor em demasia, face a sua proximidade com o rio, ou torrentes de água, ao chover, em vista das suas ladeiras, qualquer chuva vira torrente.

Íamos nós, aos sete, oito, nove anos, eu, minha acompanhante e meus métodos. Durante aqueles meus primevos anos eu, nenina franzina, mas saudável, disposta, curiosa e alegre aceitava com todos esses "atributos", estudar piano, longe da minha casa, pasmem, sem piano! Sim. Eu estudava piano, mas não tinha piano. Como? Perguntarão vocês, estudar piano e não ter piano para treinar as lições? Sim. Dos sete aos dez anos, estudei piano sem ter piano para exercitar minhas lições. Explico, eu praticava os exercícios, antes de ir para as aulas na casa da professora, sobre uma tira de papel, onde, impressos, estavam os teclados de um piano. Colocávamos esta tira sobre a mesa, afixávamos tachinhas, e sobre as figuras das teclas, eu dedilhava minhas lições, meus deveres diários, e com minha voz de criança ainda, voz branca, solfejava, simulando o som das notas. Seguia o que à minha frente, apoiado numa fruteira da mesa da minha casa, mostrava o tal método de piano, este, seguro por pregadores de roupas. Idade pouca, mas persistência muita. Dos sete aos dez anos, foi desse modo que estudei piano.

Até que, finalmente, ao completar dez anos, ganhei de presente de aniversário, um piano. Era enorme, tipo armário, preto, envernizado, comprado de segunda mão, mas em ótimo estado de conservação, e, sobretudo, era um piano inglês, com cepo de madeira. Essas foram às informações passadas pela própria professora. Uma garantia, portanto. Finalmente, pensava eu exultante, aquele sofrimento de exercitar as lições de piano sobre uma tira de papel, acabara.

Uma emoção ver os carregadores subirem os vinte e sete degraus da minha casa, com um piano às costas. Uma dificuldade. Nesta época, eu acabara de me mudar, com minha família para um apartamento construído sobre a sede do banco onde meu pai era o gerente.

O piano foi colocado num lugar de honra da nossa casa, na sala de visitas. Para mim, pequena criança, ele pareceu quase assustador, mas eu era pura alegria. Mal os carregadores saíram, girei o banquinho redondo, para melhor me acomodar e arrisquei um acorde. Quase desmaiei de susto, que som alto! Pronto, pensei, todos vão ouvir o que toco, e, certamente, saberão quando eu errar as teclas. Agora que tinha um piano, sentia saudades daquela tira de papel. Com ela, podia errar tantas vezes fosse, ninguém notava. Com o piano, todos tomariam conhecimento dos meus erros. Um vexame! Mas o tempo acomoda tudo. Me acostumei ao som do piano e, nunca, que eu saiba, ninguém reclamou dos meus erros, também é verdade que nunca recebi um elogio dos vizinhos. Em casa, meus pais e avós, principalmente meu avô, sempre me incentivavam, pediam para tocar suas melodias preferidas, compravam partituras para que eu incrementasse meu repertório, coisas assim. Meu avô puxava uma cadeira, para ficar bem pertinho, dizendo que para ouvir melhor, parecia gostar do que eu conseguia tocar. Eu, de soslaio o observava, para ver se ele estava mesmo prestando atenção em mim. E sempre estava. Lembro de quando eu ganhei uma partitura especial, acompanhada da letra adaptada, e, enquanto eu tocava, meu avô me acompanhava cantando baixinho, com sua voz grave e já cansada, era cardiopata. A música era Tristesse, uma das mais belas composições de Chopin.




Ana Lúcia Campos Prado

Ana Campos

Bacharela em Direito, pela Faculdade de Direito de Sergipe, graduada em 1969 • Advogada inscrita na OAB-SE, sob o n.9- 446 • Membro da Academia Propriaense de Letras, Ciência, Artes e Desportos (APCLAD) • Membro do Movimento Cultural Antônio Garcia Filho (MAC).

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