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  • Pascoal Maynard

Texto extraído do livro "13 BRUXAS ENTRE O ESPELHO E A ALMA"


TONEL DAS DANAIDES COMO PRIMEIRA INSPIRAÇÃO

Arrisco-me a mostrar pedaços da alma feminina neste livro que é uma trama como se fosse uma teia de aranha vaporosa, erguida com aparente fragilidade, tecida na esperança de contar histórias de mulheres e esqueço em alguns momentos que faço parte dela, da mesma trama, da mesma tessitura. Da mesma teia frágil e ousadamente fortalecida como diamante bruto que lapidado se converte em pedra preciosa de formosura extremamente sedutora.

Coloco em mim as mesmas armaduras que as mulheres bruxas da minha estória, mas às vezes desnudo-me deixando a alma nua, desprotegida. Ao escrever, vejo-me em um emaranhado de memórias afetivas que se entranham em minha carne e faz pulsar a minha pele, arrepios, suspiros, frases em meus ouvidos são (bem)ditas como se algumas deusas que se aproximam e me emprenhassem por meus ouvidos as palavras que saem das suas bocas e se colocam na minha boca.

O sagrado feminino me possui e sempre me buscou para dizer coisas do bendizer. E eu aqui como instrumento do poder divino me entrego à inspiração que me abarca e me possui quando escrevo com todo o meu alento. Falar de mulheres bruxas me encanta. Falar do feminino me apaixona. Falar de seres em que muitos desacreditam é um precioso desafio de enunciar sobre a decadência aprazível das experiências humanas, contadas em contos e com encantos de livres ideias. A experiência que não mais se valoriza na contemporaneidade, pois o que se preza é o real, como se ele fosse o pleno poder do homem sobre a terra: a lucidez que não é translúcida, que não explica nada do que a alma quer saber e sentir. Todos nós somos organizados de forma diferente e cada um se manifesta dentro de suas limitações e possibilidades. Alguns se atrevem mais a erguer os olhos para os céus e seus mistérios do que outros que se encolhem na sua mundanidade.

Aprendi desde cedo que falar com passarinho é mais verdadeiro e faz mais sentido que falar com pessoas desprovidas de magia em seus corações. De noite passarinho fica triste e eu os acolho, pois tomo de empréstimo as suas asas com que voo para bem longe em meus devaneios. Bem sei que as mulheres que escuto e dou voz estão todas dentro de mim de alguma forma, em algum momento da vida, dos sonhos que idealizei. Interesso-me com a desocultação de véus que as encobrem em noites de lua luarenta.

Procuro de alguma forma desmistificar os arriscados preconceitos com que nós, mulheres e homens, idealizamos estas mulheres. Quero descobri-las, tornando-as reais, ou irreais, expor seus constantes, rompantes, agonias. As mulheres são muitas e diferentes estórias delas se apossam e eu estou atenta para apanhá-las como pedrinhas no fundo dos riachos frescos de paisagens memoráveis da minha infância. Acolho as estórias que me sopram os anjos ou demônios que me visitam e, às vezes, fazem troças. Vejo que cada estrada percorrida tem atalhos e encontros de contos que elas cantam, encantam, por serem inspiradores, seus mistérios, suas ilusões e seus calorosos sonhos e imaginários pulverizados de estranhos ninhos construídos nas mentes abertas, desprovidas de enquadramentos. As mulheres deusas, as mulheres bruxas, as mulheres, todas elas: santas ou profanas, como os ventos não se aprisionam, são livres e podem trazer frescor aos corações.

No caminho do parir das narrativas enunciadas que vão pulando da imaginação que me possui com enormes e belas asas velozes, sinto que trago localizado na memória um deslumbramento quase fatal pela mitologia e um envolvimento com a exuberante narrativa mítica sobre as deusas, sempre as mulheres em sua força incontestável e contraditória natureza sensível, humanamente atraída pelas dores e prazeres do mundo. Parir, criar, abortar, seduzir, amar, sentir intensamente o gozo pela vida é, me parece, um privilégio das mulheres em todos os tempos e histórias conduzidas na maioria das vezes pelas mãos da escritura dos homens.

Mulheres passageiras da agonia e do gozo em suas mais inusitadas manifestações. E elas insistem em viver intensamente, às vezes como as Danaides ou como Hipermnestra . Com amor, paixão, fantasias.

— Ah! As mulheres com todas as suas nuances!

Com os mitos, parece que temos uma chance de compreender melhor as suas histórias e as inclusões humanas no mundo atual, contraditório, conflituoso, desprotegido de humanidade. Amparo-me na mitologia, em suas sedutoras lendas históricas e contos sobre deusas e suas lutas de heroínas. Atemporais e eternas, as lendas nos proporcionam uma explicação mais sensível e estética que se consagra de forma soberana na alma, não importa em que espaço e tempo aconteceram as histórias, sempre poderão ter "solturas" da razão. Devem ter modos diferentes de serem reconhecidas, de serem compreendidas.

Creio ser importante demarcar que o corpo das mulheres é sempre resultado provisório, inacabado das histórias que vivenciaram atravessado e constituído por uma fabricação dos sentidos, dos deleites ou desagrados que nele se estamparam como sinais compartilhados com a alma de cada uma delas, em suas andanças como ciganas de espaços inusitados, como anjos de mil constelações. Não duvido que as mulheres continuem eternas no tempo e que todas persistem sendo deusas e heroínas de suas próprias histórias. Inspira-me uma dessas histórias que diz:

"As danaides foram as 50 filhas do rei Dánao, irmão gêmeo de Egipto, que tinha outros 50 filhos varões. Após disputa com seu irmão Egipto pelas terras do Egito, aconselhado por Atenas, Dánao se exilou com suas filhas em Argos, utilizando um barco de 50 remos. Em agradecimento as danaides ergueram em Argos um templo em honra de Atena quando Dánao se tornou rei de Argos, a região padeceu uma enorme seca. As danaides foram enviadas a procurar água, e uma delas, Amimone, foi importunada por um sátiro. Ouvindo seus gritos, Poseidon veio em seu socorro e lançou seu tridente contra o agressor. Enquanto o agressor fugiu, o tridente bateu em uma rocha de onde jorrou três fontes de água, salvando a cidade de Argos da seca. Egipto querendo usufruir das fontes mandou seus 50 filhos até Dánao pedindo que permitisse que eles se casassem com suas 50 filhas. Dánao desejou aproveitar a oportunidade para vingar-se do exílio que lhe havia sido imposto tempos atrás. Assim, Dánao permitiu o casamento, mas aconselhou que suas filhas levassem uma daga na noite do casamento e matassem seus respectivos maridos. Hipermnestra, a maior das danaides, não executou seu marido, Linceu, porque quando se encontraram, se apaixonaram. Por isso, foi submetida a um julgamento por desobediência a seu pai, mas foi absolvida por Afrodite que se comoveu pelo amor dos apaixonados. Algum tempo depois, Dánao estava em dificuldades para casar novamente suas filhas. Dánao organizou uns jogos e ofereceu a mão de cada uma das quarenta e nove filhas aos quarenta e nove vencedores dos jogos, mas nenhum pretendente apareceu. Quando Dánao faleceu, Linceu foi coroado rei de Argos e as 49 danaides condenadas a encher com água um tonel sem fundos. A expressão "tonel das Danaides", passou a se constituir, figuradamente, o empenho eterno porque nunca conclui o trabalho feito amiúde sem que nunca apresente um efeito favorável."

Hipermnestra pode ser a configuração de tantas mulheres apaixonadas que quebram as regras sociais e não trincam seus amores. Talvez as conheçamos nesse novo tempo onde os mitos, as lendas antigas se tornam urbanas. As lendas que fazem tanta falta para dar conta dos aflitivos e complexos processos mundanos.

Certamente espero concluir esta história e supostamente atingir o fundo do tonel das Danaides. As mãos, as palavras estão me conduzindo e vou enchendo de água meu tonel e minha imaginação flutuante, aérea em caça das interfaces com as minhas dores e os meus amores que se misturam com os amores e dores das minhas mulheres bruxas, das minhas heroínas, das mulheres cotidianas contadas neste enredo que se revelam para quem quiser acreditar que a imaginação vira pó e semente, e germina em campo fértil da boa vontade e da mágica de ver o mundo com lentes da sabedoria de ser livre.

Ouso perguntar:

— As mulheres hoje continuam a encher seus tonéis sem fundo? Reconhecem no espelho suas almas?


ANA AZEVEDO


Ana Azevedo (Ana Maria Lourenço de Azevedo). Doutora em Filosofia pela Universidade Complutense de Madri/Espanha. Professora Adjunta do Departamento de Educação da UFS. Atuou como professora e gestora da Rede pública Municipal de Ensino de Aracaju/SE onde desenvolveu experiências diversas no exercício do magistério. Foi Pesquisadora Institucional e coordenadora do Curso de Pedagogia da FPD. Em sua trajetória acadêmica tem realizado estudos e pesquisas sobre infância e formação do professor da Educação infantil. Lidera o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Infância, Criança e Educação Infantil/GEPCIE/UFS e é membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação/GEPED/UFS.

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