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  • Pascoal Maynard

SANTO REMÉDIO | Extraído do livro o "O TATU DE PIRAKÊ" de Djenal Gonçalves Filho

Atualizado: 29 de Jun de 2019



SANTO REMÉDIO

Às 5 horas da tarde, Eliseu se arrumou para sair. Estava com uma tosse que já durava semanas. Tomou todo o tipo de xarope, já havia terminado uma cartela de anti-biótico... e nada. Mas, naquela noite, tinha um encontro com uns amigos e não seria por uma besteirinha daquelas que ia levar falta.

Durante a farra, foi apresentado a um médico que, entre uma cervejinha e outra, percebeu que ele não conseguia terminar uma frase sem se engasgar, tossindo. Disse-lhe que o procurasse imediatamente no dia seguinte. Sabia curar aquilo rapidinho. Era a sua especialidade. Eliseu não tinha mais a quem recorrer então, ali mesmo, marcou uma consulta com o desconhecido.

Na hora marcada, chegando ao consultório, pela porta de vidro, viu o Dr. Peixoto de rodo na mão, com um balde ao lado, passando pano no chão. Não tinha secretária.

ele mesmo abria a porta, marcava as consultas, atendia o paciente, recebia o dinheiro e dava um grau no local.

Quando o viu, o doutor, com naturalidade, levou-o à sua sala e foi direto ao assunto: "Eliseu, meu amigo, eu bebo, tu bebes, ele bebe, né? Então não vai ter antibiótico no mundo que dê jeito nessa tosse de cachorro. O efeito do remédio no seu corpinho.é o mesmo que entupir um copo de uísque com pedrinhas de gelo achando que vai beber menos álcool".

"É, doutor!", disse Eliseu, dando ênfase no "doutor", para tentar trazer maiores formalidades a sua con sulta, acrescentando: "e o problema agora é que, de uns dias pra cá, me apareceu umas pontadas no coração. Pesquisei na internet e acho que são gases. Espero!".

Dr. Peixoto sequer pegou o estetoscópio pra auscultar o ronco do pulmão de Eliseu ou as batidas do seu coração aflito. Foi logo pegando o bloco de receitas. Passou uns 5 minutos escrevendo garranchos, de cabeça baixa, mão na testa, como se estivesse recebendo alguma mensagem do além. Depois destacou com força a folha do receituário e a jogou em sua direção. Eliseu teve que dar um pinote da cadeira para alcançar a folha ainda rodopiando no ar.

"Taí, amigo. Três vezes por dia, durante dois dias. Se não melhorar pode vir aqui pegar seu dinheiro de volta", disse, com ar de uma seriedade forçada, o Dr. Peixoto.

Eliseu ficou tão perdido que sequer leu a receita na hora. Agradeceu, pagou e correu pra um boteco em que os amigos o estavam aguardando, pois já estava atrasado.

Somente quando chegou à casa, de madrugada, bebu cego e numa tosse buldoguiana, ao esvaziar os bolsos da calça achou um papel amassado. Aos poucos foi lembrando que havia ido ao médico logo cedo. Apertou os olhos pra tentar enxergar a receita:

"Para tosse: 1 dose diária de alcatrão, mel, limão, uma pitada de pimenta do reino. Amassa um dentinho e alho e joga uma rapinha de nanuscada por cima. Agite antes de usar.

Para os peidos: 1 dose de Jurubeba Leão do Norte (gelado ou natural, mas natural faz efeito mais rápido). Pode-se substituir a jurubeba por uma cachacinha Milone pura."

Receitas à base de cachaça. Esse cara é o Stephen Hawking dos médicos e encontrou o buraco da minhoca a minha vida, pensou Eliseu. Depois de dois dias, realaente foi curado.

Não havia somente encontrado um médico. Havia encontrado, mais que um amigo, um anjo. Casaram, adotaram uma criança, e participaram de um episódio ó GNT sobre a nova cara das famílias brasileiras.

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