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  • Pascoal Maynard

Quero-quero | Clóvis Barbosa


A alma é de natureza contemplativa. O nascer do dia desta última terça-feira em Aracaju foi inusitado. Estava no Parque da Sementeira preparando-me para uma corrida leve de 7km. O céu, no parque, e todo lado leste da cidade estava claro, anunciando a chegada de um sol radiante. Do lado oeste, o horizonte escuro dava a entender que chuvas torrenciais desabariam na cidade a qualquer momento. De repente, surge à frente do lado oeste, oponente, como mensageiro divino a nos repreender pelas loucuras que cometemos diuturnamente, um arco-íris encantador. Não sei, mas falam que logo após o Dilúvio, quando a Arca de Noé chegou ao Monte Ararat, Deus prometeu que nunca mais iria inundar a Terra. Como prova, depois de cada chuva apareceria nas nuvens um arco-íris e este seria o símbolo da aliança entre o Senhor e todas as espécies da face da terra. Começo a correr. Depois de 3km ou 19min de corrida, ao seguir pela trilha de barro que vai dar na CCTECA, a Casa de Ciência e Tecnologia da Cidade de Aracaju Galileu Galilei, deparo-me, no campo aberto vizinho à trilha, com dois ovos solitários. Fiquei curioso, mas não parei de correr e, mentalmente, procurei encerrar o meu exercício matinal naquele local. Aproximei-me dos dois ovos e, ao chegar a três ou quatro metros, um bando de quero-queros veio em minha direção se esganando em gritos histéricos e alucinantes. Fizeram barreira nos dois ovos como a defendê-los da minha intromissão. Parei estupefato com os gritos repetidos: ‘quero-quero, quero-quero, quero-quero’. Sem conhecer a cultura e o comportamento daquelas aves, não me conformei com o local em que estavam colocados os ovos, no chão, exposto ao sol escaldante, ao sereno, e na possibilidade de serem comidos por uma cobra ou outro animal ou até mesmo serem esmagados por um automóvel ou bicicleta que trafegavam no local. Existia uma planta rasteira no local, em forma de palha e gravetos, semelhante ao feno. Recolhi uma boa quantidade para forrar o chão, debaixo de uma árvore, e melhor proteger os ovos das intempéries.

Dei uma volta e resolvi enfrentar as feras: procurei uma árvore bem próxima, fiz uma forragem e aguardei o momento de recolher os ovos e colocá-los na sua nova morada. Deu tudo certo, embora fosse perseguido por três quero-queros, conhecido como a “sentinela dos campos”. A propósito, em 1914, Rui Barbosa, em um dos seus inteligentes discursos, disse sobre a ave: “O chantecler dos potreiros. Este pássaro curioso, a que a natureza concedeu o penacho da garça real, o voo do corvo e a laringe do gato, tem o dom de encher os descampados e sangas das macegas e canhadas com o grito estrídulo, rechinante, profundo, onde o gaúcho descobriu a fidelíssima onomatopéia que o batiza". Dizem que existem quatro subespécies que às vezes são fundidas duas a duas, formando duas espécies distintas de quero-quero: a Vanellus cayennensis, que absorve a subespécie lampronotus e a Vanellus chilensis, que absorve a subespécie fretensis. No rio Amazonas e no norte do Chile e da Argentina, vivem as do tipo chilensis lampronotus. Como ave nativa, ela habita o nordeste e sul do Brasil, além de outras partes do mundo. Procurei estudar o seu modus vivendi e descobri que vive em terrenos de baixa altitude, em campos, praias arenosas, várzeas úmidas, brejos, mangues, onde haja predominância de vegetação rasteira. A sua reação contra o meu comportamento explica-se pela intolerância que ela tem com a presença humana. Outra curiosidade é que adora campos de futebol. E, por falar em campo de futebol, o Clube Sportivo Sergipe é proprietário do Estádio João Hora de Oliveira, localizado no Bairro Siqueira Campos. Pois bem! Não é que lá residem duas corujas que vivem a atanazar um cão que também mora no Estádio e é responsável pela vigilância do local? A cena, quase sempre no entardecer, enche os olhos de qualquer espectador que assiste ao voo rasante das corujas em direção ao cachorro. Este sai em correria, tentando inutilmente alcançar as corujas. A camaradagem entre esses animais é inexplicável.

Carlos Britto, o nosso ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, sempre quando faz conferências sobre improbidade e corrupção por esse Brasil afora, gosta de citar o exemplo das garças que habitam nas margens dos rios Poxim e Sergipe, no lodaçal dos mangues ali existentes. Diz ele que, embora as garças vivam no lodo e lamaçal, diferentemente dos corruptos, não se sujam e vivem impecavelmente alvas e límpidas. Sou testemunha ocular do modus vivendi dessas aves. Em 2012 passei quase o ano todo remando pelo rio Poxim. Saía dali do Parque dos Cajueiros e sempre gostava de, logo após o píer, entrar à direita, como se estivesse voltando em direção, digamos, ao restaurante do Miguel. É um canal que cada vez mais encontra-se raso, contudo, na maré cheia, dá para trafegar remando. Ao adentrar pelo canal, parava de remar e ficava apreciando os filhotes de garças que ali habitavam. Os pais saíam em busca de alimentação e só retornavam à tarde. Eles pousavam no barco, a uma certa distância, como quem desconfiados. Era um espetáculo fascinante que só a natureza nos proporciona. E com isso vou aprendendo, como Shakespeare, que são os pequenos acontecimentos diários que tornam a vida espetacular.

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