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  • Pascoal Maynard

Por que a palavra ? - Texto extraído do livro "O Aprendiz de Oboé", de Cabral Machado.


O Aprendiz de Oboé


Por que a Palavra?

Sim, por que a palavra? Por certo, a palavra é perigosa e não, unicamente, o viver, como escrevera Guimarães Rosa. Entretanto, o mineiro amava as palavras. Daí criá-las, sob a intuição da índole da língua, em permanente vitalidade. E até um livro escreveu, titulando-o "Ave Palavra". Por certo que a palavra dá o Ser, se, "No princípio era o Verbo". Assim, a palavra, o logos, é, sobretudo, um mistério. Ademais a palavra tem o poder de revelar e de esconder. Despimo-nos nas palavras e, nas palavras, nos encobrimos. Inexistiria o mundo que criamos se o homem fosse não o animal que fala, mas unicamente o animal que pensa. Certo que com a palavra criamos um mundo — o mundo da cultura. Assim existem , sobrepostas três realidades: os Homens, a Natureza e a Cultura. Certo que a Cultura resulta dos questionamentos do espírito do homem e que as palavras revelam.

É a palavra que cria, portanto, ela é um momento fundamental do caminho do homem para a verdade. Um caminho permanente. Nas construções do espírito — as teorias — que expressamos, nem sempre a palavra revela o real, sendo ela assim uma mentira (conceito de Popper). É de mentiras o caminho da ciência. O animal — dizia Popper, o filósofo , - porque não possui a linguagem, é incapaz de mentir, portanto incapaz empreender ou compreender o trabalho da ciência", por isso que "a linguagem graças à qual o homem é capaz de dizer mentiras é, portanto, capaz de alcançar a verdade".

Vê-se, portanto, que a palavra é um instrumento do trabalho , científico, fixando as teorias para a compreensão dos... outros. Sem a linguagem cada homem seria uma ilha num mar de isolamento. Contudo , temo a linguagem — e assim a ponte — entre as pessoas.

Ademais, a palavra é sempre meia expressão e meio entendimento. Apesar de, quase sempre, termos a consciência das palavras, nem conseguimos plenamente, exprimirmo-nos, nem tampouco chegamos a nos fazer compreensíveis. Vale a confusão que dá. Mas vale, também, transcrever uma frase do cético Montaigne: "A palavra é metade de quem fala, metade de quem escuta. Significa que aquele que fala ou escreve, na verdade, unicamente é metade da palavra que fala ou escreve, pois a outra metade é concebida por quem escuta ou lê. Daí o difícil entendimento entre os homens e, em consequência, a resistência na aceitação dos outros. Se, de fato, as palavras, isto é, a linguagem, satisfatoriamente, não aclaram, às vezes, a discórdia estabelece. Mesmo sem Babel — das línguas — há Babel no desencontro entre os homens.

No entanto, a palavra, deveria ser luz... Fala-se em libertar os homens da servidão das palavras — (Se a letra mata...). Como libertá-los, se a palavra é a única moeda que circula no comércio cultural dos homens? A palavra, assim, tem um valor e uma medida. Guardam uma grandeza que as interpretações possíveis fazem — crescer ou minguar. E até por força disto, as palavras se gastam e morrem, — pois que perdem o sentido e o gosto. Elias Canetti afirmou que a palavra poeta "pertence à categoria de palavras que, durante um certo tempo, caíram enfermas, em desamparada exaustão — eram evitadas e dissimuladas — o seu uso expunha-nos ao ridículo — e foram tão exauridas que, enrugadas e feias, transformaram-se em sinal de perigo" (A consciência das palavras).

Contudo, o homem é um ser condicionado pela palavra. Vive e se realiza na palavra e pela palavra.

Então, inexoravelmente, a civilização humana é, basicamente, a civilização da palavra. Ou mesmo, do primado da palavra. Ontem fora a palavra oral. Depois, a palavra escrita e há quem afirme (Mac Lohan) que retornamos ao ciclo da palavra oral — nessa nossa vigente aldeia global —onde falam, discutem e ordenam — os nossos comunicadores. Adeus os bacharéis ou mesmo os economistas.

Gilberto Amado, um estanciano de Itaporanga, num momento feliz, escreveu: "Viver é exprimir-se". E os surdos-mudos, se não gesticulam e se comunicam numa linguagem gestual, viver não podem — pois que ficarão entre muros, fechados, emparedados. Certo que as palavras são pássaros que voam nos céus de ninguém. Mesmo os que cunham as palavras — possuí-las não sabem, eis que criadas, incorporam-se a um patrimônio comum. Há, todavia, pessoas que se afirmam como se fossem senhores da palavra, dedilhando-as no gozo labial de pronunciá-las. E se as escrevem, fazem com tanto senso de propriedade, no prazer manual de desenhá--las que abstraem ou ignoram os outros, isto é, os seus destinatários. E, por vingança, ou dormem ou se deliciam em construir a outra banda das palavras. Em conclusão: se existe a linguagem não há, realmente, a língua, mas o meio-idioma, porquanto os dois — o falante e o ouvinte -- o que escreve e o que lê não se nutrem, restando incompletos, incompreendidos e até rivais ou inimigos.

A palavra, portanto, é perigosa. Os homens objetivos procuram as palavras numa angústia de exatidão — pois querem o real expresso. Os imaginosos, especialmente os poetas e os sonâmbulos da ideologia, mostram-se sobremodo criativos, seja fabricando as palavras, seja promovendo releituras do que está escrito, alterando-lhes o sentido e a compreensão. E sobre o real que a expressão espera revelar, ou sobre o texto que a releitura quer ver a nova face, os imaginosos concebem um novo mundo. O poeta vindo de um núcleo fiel e que constitui a essência da palavra, aclara a multiplicidade de sentidos, num prodigioso processo criativo de imagens. O ideólogo de tudo o que percebe assenta as pedras do sonho utopista.

Como visto, concluído, o prosador castra as palavras. Poda-as dos seus sentidos possíveis, lutando pela univocidade. Já o poeta consegue sustentar-se, encantado da plurivocidade das palavras. E assim tudo faz com a palavra: compõe, pinta, canta, esculpe, borda, dança e tudo o mais, porquanto com elas o poeta cria o mundo da arte — a beleza. Assim o poeta vive das palavras. A elas se entrega, no mais doce himeneu.

Então tudo é apreensível em palavras e tudo é recriado em palavras — pois são as palavras — sons, sinais e gestos, sobretudo, sentidos. Ora, o gesto-palavra é pobre, rude, primitivo. No início éramos o gesto. A palavra oral é viva e alada — e com asas poderosas somem nos mais altos remígios. A palavra escrita, todavia, está cativa. Poderá restar imobilizada ou morta. Os que as escreveram, imprimiram nelas uma vitalidade invisível. Só os que lêem podem quebrar-lhes o encanto, descobrindo-Ihes o som, a cor, os matizes e, sobretudo, os sentidos, a vitalidade. E então a palavra é luz entre os homens. Eis que "No princípio era o Verbo": só pela palavra dominamos o mundo e conhecemos a Deus. Portanto, diremos como o poeta: "Ave Palavra".














Nascido em Rosario do Catete - Sergipe (1916), e criado na cidade de Capela, Manoel Cabral Machado é Bacharel de Direito pela Faculdade de Direito da Bahia (1942). Ocupou diversos cargos na administração pública iniciando como Secretário do Pref de Aracaju José Garcez Vieira passando pelo Governo do Estado de Sergipe, onde foi Diretor do Serviço Público junto ao Secretário Leite Neto no Governo Mavnard Gomes„ Secretário da Fazenda e Secretário Chefe da Casa Civil no 1° Governo José Rollemberg Leite, Secretário da Educação do Governo Celso de Carvalho, e Procurador Geral no Gcverno Antônio Carlos Valadares. Fo, também Vice-Governador do Estado de Sergipe, Conselheiro e Primeiro Presidente do Tribunal de Contas de Sergipe. Militante político, foi um dos líderes do Partido Social Democrático (PSD), tendo sido Deputado Estadual por três legislaturas, quando ocupou a liderança governista no Governo Arnaldo Garcez e da oposição nos governos Leandro Maciel e Luiz Garcia.

Professor fundador de quatro Faculdades (Ciências Econômicas, Direito, Filosofia e Serviço Social), núcleo inicial da Universidade Federal de Sergipe, teve importante parti cipação nas discussões de sua fundação como Secretário de Estado e é um dos seus Professores Eméritos.

Cronista, ensaísta, poeta, cientista, ficcionista, palestrante e orador com vasta obra divulgada e citad. Cabral Machado é também membro da Academia Sergipana de Letras e Academia Brasileira de Ciências Sociais.


Manoel Cabral Machado faleceu em Aracaju, na noite de 13 de janeiro de 2009, de falência múltipla de órgãos .

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