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  • Pascoal Maynard

Poema extraído do livro "Nós da Vida" de Francisco Santos (Chico Buchinho)


Índio postal

Quando ele nasceu para o branco

já tinha apito

pena no peito e um jeito de andar como índio.

Foi pensando ser irmão do branco

que sua mão em punho

levantou-se

e lhe caiu dos olhos

a primeira lágrima.

E , logo cedo, apareceu mais branco

com pimenta e gravata

lhe vestindo a alma

e purificando a sombra

de suas orações.

Não foi só Sepé que viu o branco

nem Tuxá, Xocó, Xucuru, Kariri,

Tupi ou Cambiwá

e não somente de semente

que seus frutos serviam para amar.

Quando ia um, vinha outro branco,

caravelas e botas navegando

todos eles queriam ser da raça

e da taça do sangue

iam provando.

Era ter um escravo tinha um branco

que o índio queria "atrapalhar"

trabalhar como o preto

não queria

era sempre o branco que dizia.

Ficou negro e caboclo com o branco

pele de sol

gosto de araçá

maionese, goiaba, acarajé

Oxum com Cristo e pajé.

Fez-se verde/amarelo junto ao branco,

com flores até resplandecer

de República azul

cor das estrelas

bandeira para se enr(x)ugar.

O índio postal saiu do branco

das trevas sem aldeia

flecha e arco

e foi para a cidade

guerrear.

Quando ele morreu para o branco

não tinha apito

nem pena no peito

e já tinha o jeito de andar

como branco.

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Pascoal Maynard - Jornalista