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  • Pascoal Maynard

PARECE QUE FOI ONTEM | Lilian Rocha


PARECE QUE FOI ONTEM

O ano era 1970. Eu havia passado para a 2ª série ginasial (equivalente hoje ao 7º ano) do Arqui e tudo era novidade. Naquele tempo, o Arqui se reduzia a um bloco de dois andares apenas e nada mais. Minha sala era no térreo, ao lado de mais duas salas de ginásio, que anos mais tarde se fundiriam para dar lugar ao auditório do colégio.

Começamos o ano com a velha farda: uma saia plissada cinza e uma blusa branca de poliéster, em cujo bolso espetávamos o escudo de metal do colégio. Mas no segundo semestre, graças a uma inovação do padre Carvalho, lá estávamos estreando nossa nova farda: uma calça jeans (que naquele tempo se chamava “calça Lee”) e kichutes pretos, no lugar daquele infame sapato Vulcabrás! Lembro que vestir essa farda foi uma das melhores sensações da minha vida!

Mas além da farda nova, ganhamos também duas novas colegas: Vera Lúcia e Vilma Leda. Eram duas irmãs, que tinham vindo de Manaus para morar em Aracaju. As duas sentavam sempre juntas, uma atrás da outra, bem no meio da primeira fileira de carteiras, perto da porta. Vera era alta, magra e mais desinibida, ao contrário de Vilma, sempre mais calada e reservada. Não tardou para que ficássemos amigas e eu fizesse de Vera a minha maior “confidente”. E minhas confidências, aos 12 anos, se resumiam a um único assunto: eu estava apaixonada pelo menino mais bonito do colégio que estudava no primeiro andar. Um amor platônico, naturalmente, desses que a gente julga que não vai passar disso. Mas Vera era paciente e não se importava de ouvir minhas histórias nem os meus suspiros. E como era muito amigueira, logo se tornou amiga dele também.

Elas moravam numa casa grande, na Vila Militar, e ao lado esquerdo da casa, havia um enorme terreno. Nunca soube se esse terreno pertencia à casa ou se era só um terreno baldio, porque essa informação, quando a gente tem 12 anos, não é relevante. O que era “relevante” mesmo era o fato de Vera convidar grande parte de nossa turma para ir à casa dela jogar vôlei nesse terreno. Talvez a gente só tenha ido uma única vez, mas a verdade é que tenho uma lembrança nítida daquela tarde, pois ‘ele’ também foi convidado. E como eu não sabia jogar nada, eu fui só para vê-lo de longe.

Tenho outra lembrança desta casa, ainda mais terna. Estávamos no final de novembro, quase de férias, e para comemorar o encerramento das aulas, Vera organizou uma festinha na casa dela, daquelas em que “cada menina leva um pratinho e os meninos levam refrigerante”. Só que ela planejou uma dança também. Escreveu o nome das meninas em pequenos pedaços de papel, e pediu que cada menino tirasse um papelzinho. A menina sorteada, então, seria o seu par.

Comecei a ficar nervosa, pois não sabia dançar e não queria nem participar daquela brincadeira, com medo de dar vexame. Mas Vera estava mesmo decidida a “dar uma mãozinha” pro meu destino e, por isso, sem que eu soubesse, escreveu meu nome em vários papeizinhos e deu pra “ele” tirar. E para surpresa de todos, eu fui “a sorteada”. E sem que eu me desse conta, lá estava ele ali na minha frente, me tirando pra dançar. Fiquei gelada, o coração quase saltando pela boca. Não me lembro de qual música estava tocando nem tampouco se eu consegui dançar. Mas nunca mais esqueci aquela tarde, nem tampouco a expressão feliz no rosto de Vera, por ter conseguido, ainda que por um breve instante, me fazer a menina mais feliz do universo...

De Vera, também ganhei um dos presentes mais lindos de minha vida. Tento forçar a memória, procurando me lembrar quando e por que ela me deu aquilo, mas isso também não devia ter sido relevante pra mim, naquela época. O importante foi o presente e o impacto que ele causou na minha vida. Era um casal de bonequinhos, cujo corpo e cabeça eram móveis. Dentro da cabeça de cada um, havia um pequeno ímã, de modo que, ao aproximarmos um do outro, as cabecinhas de ambos se atraíam e eles se beijavam. Era uma coisa linda de se ver! Ainda mais quando se tem 12 anos e vive com a cabeça nas nuvens...

Esses bonequinhos me acompanhavam para onde quer eu fosse. Pra todo mundo eu queria mostrá-los. Afinal, aquele tinha sido o presente mais lindo e mais original que eu já tinha ganhado na vida! Certa vez, uma dessas professoras “simpáticas” que eu tive, que prezavam pelo “bom” relacionamento com seus alunos, viu que eles estavam em cima da minha carteira e confiscou-os de mim. Disse que só me entregaria no final da aula. Foi muito pior o que ela fez, porque se ela já não estava conseguindo prender a minha atenção, aí foi que eu não consegui me concentrar mesmo. Só pensava nos meus bonecos, em como eles eram frágeis e delicados e diante de um movimento mais brusco, eles podiam se quebrar. E se quebrassem, como eu iria conseguir outros, se aqueles tinham vindo diretamente de Manaus?! Além de Vera e Vilma, nunca conheci ninguém de Manaus. Manaus sempre foi um lugar longínquo e inacessível pra mim! Por isso, a possibilidade de ter outros bonequinhos como aqueles era nula...

Quando aquele ano acabou, elas voltaram pra Manaus e se foram da minha vida para sempre. E o tempo passou. Vera nunca soube que a “mandinga” que ela fez deu certo, pois aquele menino acabou se tornando mesmo o meu primeiro namorado. Ela também não ficou sabendo do quanto nosso colégio cresceu até virar um dos principais da cidade. E nem soube, tampouco, que eu virei professora e fui ensinar justamente ali...

Em 2013, meu filho mais novo me fez um convite inusitado: ir com ele a Manaus. Imediatamente, foi de Vera que eu me lembrei. Mas como encontrá-la, se nem o sobrenome dela eu lembrava mais?


Mas a vida está sempre me surpreendendo... No mês passado, estava eu passeando os olhos pelo facebook, quando me deparei com uma mensagem de uma tal Vera Pontes: “Bom-dia, Lilian, meu nome é Vera, sou irmã da Vilma, estudamos juntas no Arquidiocesano e estou feliz em te encontrar no face.” Não sei definir o que senti, tal foi a minha alegria naquele momento. Rubem Alves dizia que “saudade é a inclinação da alma na direção das coisas amadas que se perderam.” Talvez tenha sido assim que me senti, quando li a mensagem de Vera. Como se minha alma houvesse recuperado um pedaço que eu julgava perdido para sempre.

Eu prometi que ia escrever pra ela, pois sei que estamos ambas ansiosas para saber o que aconteceu a uma e a outra, depois de todos esses anos. Porém, mais do que conversar, quero lhe mostrar uma coisa, que talvez ela nem se lembre: os meus bonequinhos! Eles resistiram firme a 3 mudanças que fiz, mas sucumbiram aos dedinhos afoitos das minhas 5 crianças... Mas apesar de quebrados, não tenho coragem de me desfazer deles, pois eles representam, pra mim, uma das fases mais doces de minha vida. Guardei-os por 49 anos, como quem guarda um tesouro, na esperança de um dia poder reencontrar a minha querida amiga de colégio, de quem guardo as melhores lembranças. Seja bem-vinda de volta à minha vida, Vera querida, pois do meu coração saiba que você nunca saiu...


(Lilian Rocha - 27.05.19)

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