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  • Pascoal Maynard

Os chatos partidários | Extraído do liveo "Coiote Sutil" de Cleomar Brandi.


Os chatos partidários

Devo ter, em meus alfarrábios, um verdadeiro compêndio sobre os chatos. Já lhes dediquei algumas crônicas. As chatas também. Mesmo assim, fico cada dia mais surpreso com a capacidade de multiplicação desse espécime, não tão raro como deveria ser, pra deixar a gente em paz. Quanto mais busco catalogá-los, mais eles se apresentam em toda sua plenitude, um trabalho que tem me parecido infindável e, nessa cadência, tudo indica que passarei o resto de minha vida catalogando-os e ainda vou deixar trabalho para muita gente. Ad infinitum.

Existem os chatos que são predestinados a serem assim a vida inteira. Parece até que gostam de se sentirem desse jeito. Mas, contrariando a quase regra geral, existem os chatos sazonais, os cíclicos. Copa do Mundo, por exemplo, sempre revela alguns espécimes de torcedores chatos, aqueles que escolheram logo o bar onde você foi assistir um jogo no telão e ele acha de sentar justamente ao seu lado com aquela corneta e, no pescoço, um monte de apito pendurado. E o pior é que ele buzina e ainda olha pra você sorrindo, como se a gente tivesse que gostar da patetice dele.

A proximidade das eleições trouxe à tona mais um monte de chato que não estava catalogado, mas já estou providenciando isso. Tem aquele que namora com uma menina e o tio da prima da amiga dela é candidato. Aí, meu irmão, ele resolve abraçar urna causa do destino desconhecido. Nunca o viu, apenas sabe que existe, mas sendo tio da prima da sua namorada, deve ser- na opinião dele, da obtusa figura - um exemplo de político. Daí, ele compra a briga e vai pro mundo defender, com unhas e dentes, o seu próximo deputado. Ai de você se encontrar com ele em algum lugar, num bar, numa fila de banco! Você está ferrado, amigo!

Compartilhando dos mesmos "ideais", tem aquele outro que, um dia, futucando os amigos do Orkut, sai pesquisando e descobre o nosso e-mail. Daí em diante, enquanto não terminar a apuração, o último voto, ele vai te mandar, várias vezes ao dia, aquele pedido que é quase uma súplica. E o pior é que eles não têm nenhum semancol. Mesmo sem conhecer você, distinto leitor, sabendo das suas preferências eleitorais, mesmo assim, ele não desiste. Ele acredita piamente que vai te converter, te convencer a negar seus ideais políticos e, como num passe de mágica, votar num cara que você nunca viu na vida nem nunca vai saber quem é.

Mas, seguramente, tem o pior de todos. É aquele que te encontra num bar. Você resolve dar uma saidinha, a cabeça lotada de problemas, um barzinho esquecido por todos, e ele te acha. Já chega efusivo, como se fosse amigo de longas datas. Mal senta e aproveita o abraço suado pra te lascar uma "praguinha" de um candidato no meio das suas costas. Você não percebe, só vai ver em casa, quando a raiva aumenta mais ainda. Ainda na mesa do bar, ele começa a cantilena, a desfilar o rosário de virtudes do candidato. Quem passa e ouve, pensa que ele está falando de Madre Teresa de Calcutá, de tão corretas que são as virtudes. Quer um conselho?

Enquanto a eleição não termina, beba em casa. E não abra seu e-mail.

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