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  • Pascoal Maynard

O PRATO REJEITADO / Paulo Fernando Morais


Houve um tempo em que os alimentos falavam. Era comum, antes de as pessoas se sentarem à mesa, eles conversarem, trocarem ideias, principalmente as que se referiam à vida da categoria, a arte culinária. Muitas vezes, a dona da casa ficava aflita quando havia convidados, porque da sala de estar ou da varanda era comum ouvir-se o ti-ti-ti das comidas. Na casa de gente simples, então, era um vexame, por causa da falta de educação da farinha, do feijão e do charque, assíduos na mesa do pobre. Mas em dia de feijoada, antes de servirem, os anfitriões, ricos e pobres, falavam alto, disfarçavam como podiam, porque era impossível controlar a índole ardente da linguiça, da costela de porco, do paio. Conhecidos por seu temperamento quente, ainda mais submetidos a um tratamento à base de pimenta, às vezes chegavam, às vias do fato. Este, por sinal, era dos que mais brigavam. Nas residências de pessoas abastadas, a situação era um pouco diferente: os alimentos falavam baixo, não chegavam a trocar empurrões; quando muito, alguns beliscões por trás dos porta-guardanapos e das taças. Foi numa dessas casas, por ocasião do Natal, quando pessoas da mesma família e alguns amigos costumam reunir-se para a tradicional ceia na casa de uma delas, cada uma levando seu prato, que tudo aconteceu. Uma delas, por exemplo, contribuiu com um peru recheado, embora tenha sofrido um pouco com a má vontade da farinha de se misturar com a manteiga, alegando que a carne do peru era velha, o que deixou a ave furiosa, gritando que aquilo era coisa de farinha mesmo, alimento sem classe. Outra senhora levou um prato de bobó de camarão, mas os crustáceos eram raros e pequenos. Posto à mesa, receberam um comentário depreciativo de um vaidoso filé, que lhes perguntou em que piscina haviam sido pescados. Num desses congraçamentos natalinos um alimento não pôde ser identificado de imediato. Ao vê-lo, o referido filé perguntou ao arroz o que era aquilo. Examinando-o de perto, não chegara a nenhuma conclusão, mas o arroz, com sua intuição feminina, garantiu que a cara não lhe era estranha. É preciso esclarecer que, no reino dos alimentos, arroz é feminino, enquanto a farinha é masculino, o contrário do gênero que lhes atribuímos. O arroz tem a natureza frágil, um pouco exibicionista, pois adora festas, e só funciona se unido com outras iguarias. Já a farinha é grosseira, pesadona, jeitão de macho. Contudo, não é bom exagerarmos, porque há comentários sobre sua estranha intimidade com o feijão, este, sim, um capiau de pouca conversa, um tipo durão. Mal começaram os comes e bebes, o peru, o chester, o filé, o queijo do reino, uma salada de verdura tão sofisticada que parecia o resumo da floresta amazônica na primavera, enfim, os pratos finos estavam satisfeitíssimos pelos elogios que vinham recebendo, alguns, infelizmente, ouvidos pela metade, porque logo eram degustados. O comentário geral entre eles era voltado para o prato irreconhecível, ainda que concordassem que já o tinham visto de alguma mesa. Resolveram, antes de sumirem goelas abaixo, escolher o arroz para abordá-lo, famoso por não perder uma. ─ Me diga uma coisa, meu caro, como é seu nome? ─ Enrolado de Lavoisier à Exaustão - respondeu, encabulado, o insólito alimento, exibindo uma parte mole, outra dura, um lado malpassado e outro, frito. ─ Tenho a impressão – disse o filé se aproximando – que já o vi em outras festas. Há algo em você que não me é estranho. ─ É possível. Tenho andado muito, mas sem sorte. Veja que, até agora, ninguém me procurou. ─ Infelizmente, o filé não ouviu o resto da frase, desaparecendo vorazmente na boca de um gordo cronicamente faminto. ─ Por acaso – indagou um frango assado, que acabara de chegar – não andou um dia fantasiado de lombo? O desconhecido ficou meio encabulado, mas concordou. ─ Não foi você – perguntou a maionese, com jeito meloso – que apareceu numa mesa lá no Abais todo cortado e coberto de molho pardo? ─ É verdade. Naquele dia me provaram um pouco e descobriram que eu não era galinha. ─ Naquela casa da Atalaia – criticou um peixe ao molho de camarão – você se disfarçou em fatias de carneiro cobertas com vinagre branco? Agora me lembro, porque o vinagre saiu dali espumando, e espalhou que você não era filé coisa nenhuma. ─ Meu amigo – disse uma fritada de siri, conciliadora – é melhor você contar sua história, senão alguns companheiros vão sumir sem saber quem você é. O queijo, por exemplo. Cadê o queijo? ─ Você tem razão, fritada...cadê ela? É melhor contar logo a verdade, ou acabarei falando sozinho. Eu era lagarto. Andei sendo pesado para a casa de gente modesta, o que me deixou triste. Explico: uma coisa é você sumir da mesa em bocas de dentes alvos, bem cuidados, banhados por enxaguante bucal; outra é partir desta mastigado por dentes cariados, como se fossem serrote. Felizmente, como pesei muito, a pessoa desistiu, e fui levado por aquela senhora que está falando e rindo muito, sempre com as duas mãos fechadas. ─ Ah, é a mulher sovina que tem pavor de gastar fazendo feira, exceto de joias – disse uma torta, preparando-se para entrar em cena depois do jantar. O medo dela é de tal ordem que a fez disparar sua criatividade, ao criar pratos para serem comidos apenas com os olhos. ─ Infelizmente, descobri isso muito tarde - confirmou o Enrolado de Lavoisier à Exaustão. E continuou: ─ Foi uma alegria quando fui para sua casa. O diabo é que ela, logo que chegamos, pediu à empregada pra me dar uma surra transformadora, que foi cumprida de forma exagerada, porque queria que eu virasse filé. Nesse momento, os que ainda estavam ali se viraram para a metade de um filé, que esboçou meio sorriso sangrento, mas envaidecido. ─ A empregada - prosseguiu o Enrolado – fez o que pôde. Mas alguém aqui já viu um gato se transformar em tigre? A realidade é que me testou como lombo recheado banhado de vinho Canção. Como o marido e os filhos me recusaram, repugnados, tentou me esfiapar misturando-me com um infeliz salame fatiado, o que me deixou com uma fisionomia péssima e desprezado pelos que se aproximavam da mesa. Em outro Natal, resolveu me esconder dentro de ovos mexidos, e fui, mais uma vez, posto de lado. Como não é de recuar para fazer economia, logo que recebeu o convite para essa ceia, me transformou nessa coisa que vocês estão vendo: até agora nem sequer fui beliscado, e já ouvi comentários duvidando se sou, mesmo, comida, enfeite de mesa ou algum objeto colocado aqui a título de brincadeira. Alguns alimentos conseguiram ouvir o final da história, mas outros haviam sumido nas bocas ávidas. Quando todos desapareceram, só restaram na mesa um pouco de purê e o prato desconhecido. E foi justamente o anêmico e perspicaz bolo de batata, que fez a pergunta que trouxe melhor esclarecimento: ─ Fiquei aqui me esvaindo aos pouquinhos, ouvindo vocês, e me surgiu uma dúvida: qual a vantagem dessa senhora gastando tempo e dinheiro na compra de ingredientes para transformá-lo tantas vezes? ─ Faça as contas, meu amigo – argumentou o Enrolado. Se comprasse filé o preço seria três vezes maior do que o meu e logo seria consumido. É carne tenra, não tem lá esse gosto todo, todavia, se bem preparado, sua vida é curta. Bem diferente de mim, carne sem prestígio entre os ricos, nervos fortes, que, mesmo tomando a maior sova do mundo, jamais amoleceria como o outro. Econômica e inteligente, ela me amaciou um pouquinho, me fantasiou várias vezes, e lá vou sobrevivendo, voltando para casa sem me tocarem, certo de que me alterará sempre, e muitas mesas ainda frequentarei. Veja quanto ela economizou! O resto do purê concordou, e sumiu na boca de uma copeira que estava recolhendo os pratos.

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