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  • Pascoal Maynard

Na cadência do Samba


Nelson Cavaquinho, o mais dolente poeta do samba brasileiro, protagonizou uma memorável farra em nossa casa, na Rua Luiz Chagas, na Atalaia. Era uma casinha de pescador sem maiores confortos que alguns colchões guarnecidos de velhas almofadas e toscos tamboretes pra sentar, mas reunia, naqueles tempos amorosos, a nata da realeza intelectual e os mais promissores políticos locais em festas que misturavam a jeunesse dorée das ondas sergipanas, os malucos mais inadequados e os artistas de fama nacional de passagem pela província.

Nelson fora convidado pela UFS para um Festival de Artes de São Cristóvão no início da década de oitenta e foi levado, pela sua empresária, a querida Siomara Madureira, para uma breve visita ao atracadouro local de artes e outras maluquices, o nosso descolado lar, para uma breve palhinha.

Acontece que na mesma noit, estávamos recebendo o Balet Stagium, com todo o seu Corpo de Baile a saltar pela casa. Nelson Cavaquinho, já abancado num desconfortável tamborete para aceitar pedidos musicais das meninas presentes, via-se a todo instante agraciado pela coreografia sensual de belas bailarinas em volteios e saltos sobre si e declarou, diante daquela prodigiosa visão de encantos femininos , que jamais sairia dali, da casa do Amaral, onde estava sendo tão bem recebido Tocou a noite inteira, abraçado ao instrumento daquele jeito que era só dele - com o queixo quase roçando as cordas do cavaquinho - e nos proporcionou a mais autêntica intimidade com a malandragem do samba carioca.

Ao raiar da manhã, o representante da UFS que armara uma Missa na Catedral em sua homenagem, porque era o dia do seu aniversário, encontrou-o arriado e de bode, babando um velho colchão na casinha animada da Rua Luiz Chagas e só o levou para a acadêmica solenidade religiosa depois de aceitar que o acompanhássemos, todos nós, os malucos ainda resistentes, ao culto administrativamente programado.

O nosso mais fiel guardião do samba bem levado, o respeitável boêmio Clínio Carvalho Guimarães estava lá e ainda hoje considera aquela farra como a mais inesquecível do seu robusto currículo.

Amaral Cavalcante- 02/12/2016

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