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  • Pascoal Maynard

Leitura de domingo. Do livro "Contos malditos e histórias de mim", de Newman Sucupira.


Prefácio

Convidei, certa vez, o Sr. Newman para um encontro em minha Igreja, onde tentei iniciar o trabalho de trazê-lo à companhia de Jesus, o Salvador. Ele lá chegou completamente bêbado, gritando vivas a Deus e aos "idiotas" presentes. Tivemos de transportá-lo para o isolamento de uma sala e tentamos acalmá-lo. Ele ficou o tempo inteiro dizendo-se masoquista e pronunciando irrepetíveis propostas indecorosas a uma de nossas companheiras em Cristo que se prestara a ajudar-nos em nossa busca de levá-lo à Elevação. Não perdi as esperanças, contudo: considero minha missão neste planeta guiar pessoas ao Sangue do Filho de Deus através do amor e do temor a Sua Elevada Figura. Newman é meu maior desafio.

As mesmas obrigações de amigo me levaram a prefaciar esta coleção que ele chama de "Contos Malditos e Histórias de Mim", encargo que não aceitei de pronto, mas que tive de aceitar como parte da minha missão de catequese: digo precisamente o que penso das "obras", pois ele me garantiu que a reprodução seria integral.

Em primeiro lugar, não recomendo a compra do livro. Os textos são irrelevantes; péssimos exemplos para os jovens e para aqueles com mentalidade em formação, assim como para aqueles sem o necessário embasamento religioso e filosófico: sem a indispensável Presença de Cristo no coração.

Mesmo na eventualidade de ser publicado, algo muito improvável, este material jamais será um sucesso: o autor faz uso de línguas estrangeiras, o que é não apenas pedante, mas paradoxal e impatriótico; o autor é ilógico e escreve mal; o autor usa de personagens sórdidas, pessoas do mais baixo nível mental e que mudam como se mudar fosse a regra; o autor enaltece a exceção em vez de a combater, tratando a Vida como se ela fosse propriedade do indivíduo e, portanto, passível de ser descartada; o autor tem doentia fascinação pela morte, canta o suicídio e o crime, tal tão desafinado cantarolar por vezes recheados (sic) de idéias como "limpar a humanidade", prática parecida com aquela de Adolf Hitler; o autor despreza o sentimento religioso e demonstra repetidamente o seu descaso pala Ser Superior; o autor se mostra profundamente iconoclasta, sem que para isso se divise motivo aparente; o autor faz uso de língua vulgar, atentando aos Valores Cristãos até mesmo pela linguagem; o autor arvora-se de uma aura de superioridade inteiramente injustificada; o autor peca por pobreza, e procura induzir a uma mentalidade intolerante, onde (sic) reinam a desgraça e o ódio: seu objetivo é corromper.

Levanto, pois, a minha voz contra este livro em que se despreza (sic) os valores humanos e em que se vitupera o Santo Nome do Altíssimo com pretensões filosóficas chulas.

José Augusto de Moura Sampaio Academia Sergipense de Letras


Opiniões:

"...achei que há misoginia, a qual sugere pejoração quando você trata de sexo..."

" ...fica meio discriminador ao invés de (sie) surreal."

"... são até anti-literários."

"...acho que poderiam ser mais secos."

"... mas o tipo de linguagem é um tanto discrepante para o estilo. Ou há uma certa (sic) adjetivação pomposa, ou coloquial demais (sic)."

"Nem o velho Bukowsky descreveu genitálias e tais ião despudoradamente em seus textos..."

"... você ... descreve (sic) um enredo seco, contudo através de uma linguagem mais rebuscada."

"... pede estômago de médico legista para ser lido...

"... não há a menor sombra de moral..."

"Há um problema de tempo em seus contos!"

"... mas, Aracaju não merece isso!"

"Que Academia Sergipense é essa?"

"...vagão pesado não faz barulho..."

"... silo pouco jornalísticos... Mude tudo..."

"... por isso, não serão publicados de jeito nenhum!"

"Por que você não procura publicá-los pelo Governo?"

"Quanto a 'Ninguém é do IRA', o excesso de diálogos compromete a narrativa,..."

"... exercícios ficcionais feitos por um iniciante,..."

"... os textos narrativos perdem a densidade fabulatória e se aproximam da crônica literária, com a qual não se confunde o verdadeiro conto."


Ninguém é do IRA.

Através da vidraça, eu via as pedras e o mar. Era um desejo que se realizava: ver o litoral irlandês. O Atlântico rugia em descompasso sublime, suas águas elevavam-se do eterno lutar contra o promontório. O ar era úmido, frio e pesado, e me trazia a estranha e nítida impressão de que da temperatura a roupa me fosse capaz de proteger, mas não da umidade certamente salgada que eu imaginava me maculasse a limpeza. Elevei até entre a janela e meus olhos o copo com uísque, examinei-lhe a cor, aproximei-o da boca, senti-lhe o aroma, e sorvi-lhe o conteúdo de um único e rasgante gole. Pareceu-me mais rude do que os da ilha vizinha, um pouco mais severo, eu pensaria, em conformidade com a rudeza e a severidade que me são peculiares em tantos momentos de verdade inocultada. Era uma delícia!

O calor do uísque começou seu efeito nos meus estômago e cérebro. Atingiu-me uma onda de disposição. Servi-me de outra dose, esta responsável pelo ganho hadriônico da coragem que me faltava para iniciar o trabalho. Apanhei do chão a bolsa de couro, de onde tirei a câmara e lentes que julguei me fossem ser mais úteis. Levantei-me e fui pagar.

"O senhor é fotógrafo?" A pergunta era tola. Virei a cabeça para o material sobre a mesa.

"Sim. Trabalho para a gência X"

"Nunca ouvi falar dela."

"Quanto lhe devo?"

"Duas Libras.", olhou-me, "Nunca ouvi falar dela.

" Paguei e me dirigi à mesa. Tirei da bolsa um exemplar de uma revista em que se publicara uma foto tirada por mim. Ele a examinou com interesse.

"Bela fotografia. Mas, da agência, nunca ouvi falar."

"Mas ela existe, como pode ver. Posso fotografar seu bar?"

"Não." Preparei-me para sair.

"Qual é a sua religião?"

"Não tenho religião,", respondi, -sou um agnóstico."

"Americano?"

"Brasileiro."

"Que religião predomina no seu país?"

"O catolicismo."

"Para um inglês, o senhor responderia 'o protestantismo'?"

"Não. O catolicismo é, de fato, a religião predominante no meu país."

"Não lhe perguntei isso. Perguntei-lhe se mentiria para :1(lar a um inglês."

"Meu país é Kiltartan Cross, os pobres de Kiltartan meus impatriotas..." Sorriu-me francamente pela primeira vez.

"Sua família é católica?"

"Sim."

"E é precisamente isso o que o senhor diria a um inglês."

"Sim! Por que não diria?"

"Sei que diria."

"O senhor é do IRA?"

"Ninguém é do IRA." Olhou-me diretamente. Um olhar garboso.

"Alguém tem de ser."

"Ninguém é do IRA."

"Mas o IRA existe..."

"Ninguém é cio IRA." Da porta que ligava o bar à casa contígua, saiu um jovem num sobretudo bege. Passou por nós e andou à porta de saída. Fora, um automóvel com três ocupantes. O rapaz abriu uma das portas e entrou no cano, que partiu.

Virei-me para o dono do bar. "Obrigado pela conversa" Ele não me respondeu, posto me tivesse ouvido. Saí à rua e caminhei para a costa ao sul. A paisagem era deslumbrante.

Decidi voltar ao bar apenas no dia seguinte, após fotografar a aurora. Meu corpo gelado quase podia sentir o efeito reconfortante do acre uísque do dia anterior. À frente do prédio isolado do bar-casa um caminhão do exército britânico, contra o que se reclinava um soldado de ruzil em riste, fumando.

Tirei um cigarro do maço que carregava e me aproximei.

"Tem fogo?" Ele me estendeu o braço esquerdo, à mão um isqueiro de plástico. A mão direita permaneceu nas cercanias do gatilho. Acendi o cigarro e devolvi o isqueiro.

"Obrigado."

"Abra a bolsa!"

"O quê?..."

"Abra a bolsa!" Abri-a e ele a revistou até estar satisfeito.

" \Cocê é inglês?", perguntei.

"Sim""Que laz aqui?"

"Cumpro ordens"

"Seu companheiros estão no bar?"

"Sim"

"Posso pagar um trago?"

"Náo pode."

"É uma pena.", sorri "Obrigado pelo fogo,"

"Por nada."

Entrei no bar. A uma das mesas, o dono e um coronel.

Aproximei=me

"Bom dia!" O homem tinha os olhos vermelhos, o coronel sequer se dignou a olhar para mim.

"Posso tomar um pouco daquele uísque de ontem?" Visivelmente curvado, levantou-se a criatura que então muito pouco me lembrava do garbo do dia anterior. Acompanhei-o ao balcão. Apanhou a garrafa olhando diretamente nos meus olhos.

"Os porcos mataram meu filho...", disse num fio de voz, - Acusaram-no de ser do IRA... Ninguém é do IRA... Estou só... Era meu único filho... Estão revirando minha casa...Ninguém é hdo IRA... Os porcos... Estou só... Os porcos... Saia daqui!"

Achei-me desnorteado como em poucas vezes na vida. ''Quanto custa a garrafa?"

"Saia!" Apanhei a garrafa e deixei dez Libras sobre o balcão. Da porta de acesso à casa, surgiram cinco ou seis homens.

"Nada achamos, coronel, senhor!'"

"Como 'nada', sargento?"

"Nada, senhor!"

O coronel finalmente olhou-me. "Saia!", gritou, e virando-se para seus subordinados, "Procurem aqui no bar!"

Saí. O soldado do fogo estava no mesmo lugar. Cumprimentei-o, olhei para os lados. Dessa vez fui para o norte... tinha de acabar meu trabalho.

Foi então que o mundo pareceu desabar sobre mim. Fui atirado longe pelo deslocamento de ar. Dei por mim algum tempo depois. Virei-me, com a cabeça em turbilhão, para constatar que o bar já não havia, que a casa jazia em ruínas e que o caminhão ardia violentamente. Fui ajudado por moradores que acorriam às tulhas àquele inferno.

Por que me salvara o dono do bar, não me ocorreu à época. Hoje, procuro voltar à Irlanda para conhecer Coole e Kiltartan Cross.


Recomendamos: https://empautaufs.wordpress.com/2009/06/22/as-muitas-faces-do-maldito/

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