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  • Pascoal Maynard

JOÃO OLIVA, DOCEMENTE CRISTÃO  (João Oliva, um cidadão exemplo)



Fala-se tanto, agora, porque o vozerio emana do mais alto escalão da República, aliás ainda laica, numa qualidade necessária a cada brasileiro, que seria aquela convicção “terrivelmente cristã", mais especificamente “terrivelmente evangélica”, até credencial para que sejam ungidos de agora por diante possíveis futuros ocupantes do Supremo Tribunal Federal.

Mas esse não é assunto do qual aqui queremos tratar.

Na verdade, o que desejamos é tendo como foco a vida de um homem agora morto, retemperar a força da razão, diante do desvario que até pretende transformar a fé, ou seja, uma a religião exclusiva, em instrumento da política, e orientação do Estado.

Esse cidadão, jornalista, advogado, escritor, poeta, um frade sem envergar o hábito, João Oliva, viveu profundamente a fé, mourejou no seu dia a dia a prática virtuosa da solidariedade, que deve ser o âmago da consciência cristã. Para isso, aparelhou-se por toda a vida para tornar-se um homem do saber. E o fez para poder pensar, distinguir, intuir, também aconselhar e harmonizar. João Oliva não foi apenas um intelectual da sua época, da sua geração. Seguindo aquele dístico “Ao espírito vivo",  que está no pórtico da universidade de Heidelberg, onde se inicia o “caminho dos filósofos", Oliva integrava-se ao mundo, participava de tudo que significasse a clarificação do espírito, o que mais acendia a sua chama interior da religiosidade, e o fazia compreender melhor as transformações do mundo, dos costumes, da própria vida, e demonstrando junto com a esposa, para a sua  numerosa prole que o choque de gerações somente gera consequências quando falta o sorriso da compreensão, ao lado da firmeza do exemplo. Por isso, os onze filhos se fizeram seus herdeiros do que era a sua maior riqueza: o caráter, a honra, a sede de saber, a ânsia de justiça.

Ele  passou a vida harmonizando, disse, ao lado do esquife na Academia Sergipana de Letras o acadêmico presidente Anderson Nascimento. A arte da harmonização era uma característica do meu pai, disse o filho Luiz Eduardo Oliva.

Antônia Amorosa, artista, na despedida fez música e poesia, uma epifania para o instante. Tudo muito no clima de suavidade e paz, a síntese do que foi a vida daquele exemplar morto.

Se perguntassem a João Oliva se ele aceitaria ser Ministro do Supremo sendo "terrivelmente" cristão, ele, com certeza diria que gostaria de definir-se como docemente cristão, empregando um advérbio mais próximo da mansa serenidade do Cristo.

Na noite do dia primeiro de abril de 1964, Seixas Dória que estava no Rio de Janeiro, retornou a Aracaju, e reassumiu o governo tendo a certeza de que em breve seria preso. No Palácio Olímpio Campos, que tinha a dupla função de sede do governo e morada oficial do governador, em torno da mesa onde Seixas jantava com a família e alguns auxiliares, naqueles instantes tensos, depois de reunir-se com sindicalistas, estudantes, líderes da esquerda, todos ansiosos por ouvir uma palavra do governador que significasse resistência ao golpe já consumado, Seixas explicara que não haveria resistência em nenhuma parte do país, e que ele todavia, iria fazer um manifesto externando seu compromisso com a legalidade e a democracia, mesmo tendo a certeza de que logo seria deposto e preso.

O Palácio logo esvaziou-se, indo o grupo concentrar-se na Estação Central da ferrovia Leste Brasileiro. Em torno da mesa de refeições, o reduzido número de auxiliares e amigos permaneceu fazendo companhia ao governador. Começou-se, então, a discutir os termos do Manifesto. João Oliva era o Secretário de Imprensa e deu o tom: “O texto deve ser sereno para evitar provocações, e afirmativo para não denotar covardia”. Recebeu logo do governador a incumbência de redigí-lo. Foi à Remington, concluiu a tarefa, e informou a Seixas Dória: “Vou ler antes o texto ao telefone para  Dom Távora”, que era o Arcebispo.

João Oliva tinha em Dom Távora um paradigma para a sua vida. Guardou com ele o que o Arcebispo lhe dissera, e o manifesto, tal como redigira foi levado à Rádio Difusora para ser lido pelo diretor, o locutor Sodré Junior.

Na madrugada Seixas Dória foi preso, e ao amanhecer do dia Oliva retornou ao Palácio ocupado pelos militares. Dirigiu-se ao vice já “empossado" Celso de Carvalho, disse-lhe que estava ali para entregar-lhe o cargo, e dar ao sucessor as informações que fossem necessárias.

Celso, sempre gentil e moderado pediu-lhe que aguardasse para que o assunto fosse decidido e Oliva  com  voz mansa e tranquila respondeu-lhe: “Doutor Celso, o governador Seixas Dória me nomeou, e como ele está preso e não pode exonerar-me, eu tenho a obrigação moral de me considerar exonerado”.

Assim fez, e assim, lúcido, tranquilo, permaneceu por toda a vida conservando aquela altivez e coragem moral que, somente os puros de espírito sabem manter, sem disso fazer alardes.

João Oliva foi o cidadão de uma época, e um exemplo para todas as épocas.


(*) publicado em 02/08/2019 no blog Luiz Eduardo Costa:


http//www.blogluizeduardocosta.com.br


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