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  • Pascoal Maynard

João Melo: o jardineiro da canção Texto de João Oliva, extraído do livro " Mural de Impressões"

Atualizado: 6 de Jul de 2019


João Melo: o jardineiro da canção*


Conheci o cantor João Melo numa noite de seresta, em Boquim, lá pelos fins de 1936. Um pouco antes, ele havia chegado de Salvador, Bahia, para morar em Boquim, trazido com mais dois irmãos pelos pais, o Dr. Paiva Melo, médico — que se instala com uma farmácia— e D. Aurélia. O casal enviara João Melo a cursar o ginásio em Aracaju, de onde só voltava no período de férias. Quanto a mim, nascido em Riachão, também chegara, nos fins de 1935, à terra de Hermes Fontes, empregando-me ali como balconista da loja do então Prefeito, Sr. José Andrade de Oliveira, ficando a morar com minha avó materna e uma tia; esse emprego fora anteriormente ocupado por meu irmão mais velho, Raimundo, (que conseguira melhor colocação na Capital do Estado. Na nova cidade, fui acolhido por um grande companheiro do meu mano,o Zeca Dória que, nascido em Lagarto, também fora, desde 1934 trazido por sua família para morar em Boquim. Ele fez questão apresentar-me como novo amigo a todas as famílias relacionadas com a sua.

Sobre João Melo, ele já me havia informado de que, enquanto fazia o curso ginasial, em Aracaju, frequentava os meios radiofônicos, destacando-se como cantor de voz maravilhosa da PRJ-6 Rádio Aperipê de Sergipe; João Melo pertencia a um Conjunto regional integrado por Ursino Fontes Gois, o famoso Carnera — mago do violão e buquinense de nascimento. Finalmente, o meu amigo terminou garantindo-me que, nas próximas férias escolares, Melo e Carnera estariam em Boquim e realizariam a seresta por nós tão desejada. Efetivamente, naquele novembro de 1936, chegaram os dois jovens artistas, que não se fizeram de rogados: anunciaram serenata logo para o fim da semana seguinte.

E naquele sábado, à hora aprazada, o Zeca e eu — que já víamos obtido das nossas famílias uma licença para o atraso no regresso à dormida, comparecemos, por cerca das 21 horas, à esquina Eugênio Nascimento com a praça Hermes Fontes, onde começaria a noitada romântica. Só que éramos apenas simples assistentes.

Daí a pouco, após os acordes introdutórios dos instrumentos de corda, a voz maviosa de João Melo elevou-se dentro da noite buquinense, acompanhada ao violão pelo grande Carnera, numa canção de Silvio Caldas. Por alguns minutos, os sons melódicos e harmonioso evoluíram no ar para depois irem baixando suavemente, até que suas últimas ressonâncias parecessem arquejar, tragadas na voragem noturna e silenciosa. Certamente iam deixando uma sensação de êxtase nos corações femininos que ouviam, apaixonados. Daquela esquina saímos percorrendo outras ruas, parando em trechos onde a turma sabia residirem mulheres bonitas, escutando suspirosas. Uma das canções que mais tocou a minha sensibilidade ainda adolescente, não me lembro do título, mas a letra parece-me ser de Orestes Barbosa dizia (para a musa: "dorme, no teu leito de virgem / que a teus pés dorme o meu ciúme/ desgraçado e faminto como um cão..." Adquiri, depois, uma cópia dessa canção autografada por João Melo, mencionando a minha participação naquela serenata histórica, e, por muito tempo, exibi-a orgulhoso, às amigas; porém, ao tentar cantá-la, só recebia uma tremenda vaia.

Depois, a roda do tempo levou cada um dos principais personagens desta história para lugares e destinos diferentes, embora acabando por reuni-los, já na terceira idade, nesta Capital do "nosso sergipinho". Realmente: de Boquim, voltei para Riachão, ingressei no serviço público, fui transferido para Estância e daí para Aracaju, onde, nas horas vagas, também passei a escrever na Imprensa; aposentei-me e fui ficando por esta Capital até hoje. O Zeca voltou para Lagarto, tornou-se empresário, e, também aposentado, veio morar nesta mesma cidade. E João Melo, depois de ralar, por certo tempo, na vida musical sergipana, transmigrou-se para o céu da Bahia, onde brilhou ao lado de grandes astros da voz e da música baiana — João Gilberto, Dorival Caymmi e outros; já então também compositor, acompanhava toda a linha de renovação da música nacional.

Em seguida, nosso cantor fez sua ascensão ao firmamento artístico do Rio de Janeiro, onde, além de impor-se como intérprete e compositor, dirigiu estúdios e gravações; e, inclusive, teve influência benéfica na carreira de artistas então principiantes, hoje famosos, corno Djavan, Jorge Ben Jor e outros.

Finalmente, vitorioso, mas já marcado pelos anos e pela profunda saudade do cenário de sua adolescência ("Ai que saudade do meu sergipinho!"), ele dá uma guinada no leme do seu barco, redirigindo-o de volta para Aracaju; aqui ancorou com sua família em porto calmo, mas continuou a produzir. Até 2003 manteve, inclusive, com grande audiência, um programa de memórias na TV, intitulado "Videoteca Aperipê Memória", no qual tive a honra de ser por ele entrevistado, quando, então, relembramos o nosso antigo encontro na seresta de 1936, em Boquim.

Recentemente João Melo lançou o seu CD, "Coração só faz Bater", com músicas por ele compostas. E agora está editando seu livro de memórias. Quanto a Carnera, também este andou transferindo-se para o Rio, mas, não se adaptando à agitação da vida carioca, fez-se de volta a Capital de Sergipe. Daqui, porém, um dia o giro da "Roda inexorável" arrancou-o em definitivo de suas raízes, e levou-o com o seu violão para tocar nos espaços sidéreos da eternidade. A ele nossa eterna saudade!

E a João Melo por fim dizemos: os sergipanos todos o saúdam, como a um irmão e como um dos maiores intérpretes musicais das nossas emoções!

Nota: O cantor João Melo que, em janeiro de 2006, lançou em "noite de autógra-fos", pela Editora Triunfo, o seu livro de Memórias, "João Ventura, Cidadão de Aracaju", faleceu aos 05/01/2010.

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