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  • Pascoal Maynard

Extraído do livro "Pássaro do Entardecer" de Antônio FJ Saracura


MORADORES DAS TERRAS LONGÍNQUAS


Quando eu era menino, o mundo além de meu rude povoado parecia uma vasta e misteriosa noite. Estrelas brilhavam bem longe... Talvez fosse a Oropa de que alguns esmoeres, ao pararem em nossos telheiros, falavam. Mas ninguém poderia garantir ser verdade verdadeira. Os esmoleres poderiam estar inventando, querendo impressionar. Nas bodegas, na boca das noites, quando as conversas engrolavam, saíam referências soltas a outros povos, moradores de terras longínquas, depois da lua, talvez: paulistas,ta:moios, gaúchos, galegos... eram como visagens: existiam, mas pouca gente daqui os vira uma vez sequer, mesmo de longe.

Havia Itabaiana Grande, que era a nação de nosso povo. Sergipe e São Paulo misturavam-se ao resto numa embolada confusa. De quando em quando, alguém falava de alagoanos guerreiros que habitavam tabas além do grande rio e de baianos irmãos dos ciganos, trocadores de cavalo.

A morada da caça foi mudando de nome e de jeito... Virou o curral nômade e, depois, o sítio, com a malhada de lavoura, com o pasto de criar animais de tração e gado de leite. Havia a casa sombreada por fruteiras e cercada da manga de manejo aos bichos, a cozinha do forno, o depósito de ração e de mantimentos. Então apareceram arautos montados no vento. Diziam que o mar era raso, o mundo todo cabia em qualquer cabeça.

Nos entardeceres, pássaros perdidos, vindos de outros cantos, pousados nos galhos das juremeiras que cresciam nas margens das lagoas Obra Fina e Saracura, juravam que a lua, em cima da serra, ficava ao alcance da mão estirada. Bem-te--vis daqui berravam que era verdade sim. Eu vi! Eu também vi! Mil outros gorjeavam, em revoadas, concordando. Muitos acreditamos e saímos voando, fomos vender os frutos de nossa lavra ou a seiva de nossas vidas cada vez mais longe. Exploramos o desconhecido, domamos medos, varamos abismos e caímos neles também. E, aí, eu não era mais criança.

Os moradores dos sítios, no raio de uma légua, conheciam-se. Nos momentos livres, cultivava-se a camaradagem entre adultos e as brincadeiras entre a criançada. As famílias se visitavam nas bocas de noite da semana e aos domingos pelo dia. As casas, quase sempre, estavam na beira das estradas, e os passantes podiam cumprimentar os donos e bater um dedo de prosa antes de seguirem avante. Contavam-se novidades, falava-se mal da vida alheia, diziam-se ditos chistosos, engraçados...

Nos finais de tarde, quando o gado era trazido às mangas a fim de comer ração e de apartarem-se os bezerros, uma sinfonia de aboios e de tome-tomes tomava conta do mundo inteiro.

E tudo continuou mudando.

Cresci e desvendei mistérios que me assustavam antes.


Antônio FJ Saracura


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