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  • Pascoal Maynard

Extraído do livro "Filtro de Luz" de Marcelo Ribeiro.


BEM-VINDO

A boletado no tamborete baixo de fabricação caseira, Sinhô vagueia os olhos azuis para observar os longes. Lonjura pequena, que parcas são as terras e as serras que as limitam estão bem ali, espiando-o, espiando a casa e os bichos, as árvores, espiando aquele naco de fazenda arrendado ao coronel Aureliano Menezes. Espiando tudo. Reduzindo-lhe o horizonte. Do miúdo alpendre costuma o homem deitar os olhos pelo descampado; de há muito sem a pele verde que tanto lhe é do agrado. Desde 1866 - sim, já se iam seis longos anos - as secas assolam Sergipe. Arreliado andava com o esturricado que via diante da pequena varanda, grama rala e seca, áspera, espetando-lhe os pés. Dia e noite o pó sujo a se insinuar pela varandinha e por baixo da porta e das duas janelas da frente. Melando as paredes e o teto, encardindo a casa toda. Vai hoje é ficar por ali, dispensar a peleja do dia. Não é que noite alta danara-se a mulher a alisar a barriga, gemer baixinho, queixar-se de dores... -Acho qui da manhã num passa. Vigie uns pano limpo na parte e cima do guarda-rôpa, hôme, pra quando truxer a cumade. Saíra inda escuro pra buscar Bastiana. Mal botou os olhos na parteira, Mariane sossegou-se, aquietou foi de cara a gemedeira. -Também ele, marido, se acalmara um pouco, tinha quem a ela desse socorro, tirava um peso dos ombros. O estranhamento de Sinhô neste instante é que ele não tenha dado as caras. O rei. Não se vê a cinta de cores que vem na frente, a faixa de riscos no caminho dos céus anunciando a chegada certeira. Nem subira a serra o posudo, não dera a sua boniteza o ar da graça. Onde se enfiara, que seria daquele amarelão todo parrudo? Donde esse atraso? Deus hoje acordou foi preguiçoso, não quis mexer com as tintas — pensa de brincadeira pra desamarrar o aperto do peito. O certo era já tudo estar clareado. Mas não. O cinza do resto da noite que se vai não quer nem dedinho de acordo com o dia, não abre braços nem pernas, não dá guarida à passagem da luz. Sinhô é madrugador, tem o vezo de vir na horinha certa para fora, ver a bolota de fogo subir e mostrar a força que a todos dobra. Desde porrotó era impressionado com a alvorada. Espantava-se com o chegar manso dele, meio caladão, e devagarinho alumiar e esquentar tudo em volta. Reinar por inteiro nos pedaços todos, poderoso que só. Dar cor a gente, bicho, plantas, coisas. O cabra era mesmo um fio do cancro! Tudo num só aparecimento, mostrando suficiência para, duma golfada somente, trazer luz e vida. Esparramar calor mundão afora. Abraçar tudo e a todos numa só relepada. Um senhor acocho! O bicho é bem mais que grande. Chegara a achar que Deus era amarelo, menino é mesmo gente besta.

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