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  • Pascoal Maynard

Do livro "Roteiro de Aracaju" de Mário Cabral | "Tipos Populares" | 1948


TIPOS POPULARES


Cabo Lino, amiga, foi o engraxate mais popular da Cidade de Aracaju. Usava, habitualmente, calças pretas, colete, colarinho duro e gravata vermelha. Não usava paletó. Nas festas natalinas, perdia até o último centavo, tudo o que ganhava em sua modesta profissão, bancando o "barrufo" com um copo de vidro, através do qual, antecipadamente, os jogadores viam o número dos dados. Zé Cavalo, outro tipo popular, era um sujeito alto, forte, gordo, de rosto largo e moreno. Na Guerra do Paraguai foi um valente. Comia muito. E por isso mesmo vencia duas etapas, prestando, consequentemente, serviço dobrado. Zé Cavalo, realmente, quer pela sua força (conduzia às costas um boi esquartejado de mais de trezentos quilos), quer pela sua coragem, quer pelo seu trabalho, valia por dois soldados. Odorico Magalhães, no seu livro Tipos Populares de Aracaju, relembra os nomes de José Fala Fina, Saturnino Prelelué, João Cabelo de Arroz, Robalo Corcunda, Moleca Edite, João Bicho Duro, Comissário Petica, Chico Tira e Seu Alho. Mas é preciso falar, também, de Pedro Correto, Zé Dentão, Jovino Meu Negro, Alpercata Faceira, Troca Chapéu, Meia-Garrafa, José Caranguejo, Matô Sargento, Sempre Viva, Chico Capadinho, Sinhá Jacaré, João de Vigo, Rei Menino, Garapa, Bola de Neve (morreu chefi-ando um levante na Penitenciária), Toicinho Rançoso, Lavura, Maria Inocentinha, Mãe da Lua, Monzuá, Pé de Gancho, Cancão, Ari Bemvindo e Ceci Gasosa. Vale recordar, ainda, o tipo de Garocha que inspirou poetas e prosadores.

Hoje, porém, a Cidade de Aracaju está quase deserta de tipos populares. Poderei falar, apenas, de Piaba, Doutor Leandro e Tou Te Ajeitando. Piaba é um indivíduo alto, magro, de cor branca, atualmente tanoeiro. Sua popularidade decorre do seu fabuloso apetite. O homem come tanto, que, certa vez foi convidado a fazer uma refeição no Hospital de Cirurgia, perante a classe médica sergipana. Sua refeição, nesse dia, segundo testemunha ocular, constou de dois litros de feijão, com farinha, um quilo de carne verde, uma dúzia de ovos, dois litros de arroz, seis mangas e duas latas de goiabada, marca "Peixe", das grandes. Piaba comeu tudo, agradeceu e retirou-se. Piaba é assim. Quem duvidar pode fazer a experiência. O ponto de sua canoa é a rampa do Mercado Modelo. Piaba aceitara o desafio, porque, geralmente, ele não pode comer à sua vontade: sobra-lhe em apetite o quanto lhe falta em recurso financeiro.

Doutor Leandro é um rapaz moço, quase negro, roupa de casimira, os pés no chão. Doutor Leandro é estimado pelos grãfinos da cidade, porque, na sua loucura, ele próprio se considera um burguês, um homem cheio da "prata", da "erva", da "gaita", o dia inteiro à porta dos bancos, esperando, pacientemente, que lhe sejam pagos milhões e milhões de cruzeiros. Doutor Leandro é parente de todo homem de fortuna. É beato. Não diz "nomes feios". E todo substantivo em sua conversação, vem precedido pelo adjetivo "santo". Doutor Leandro só diz o "santo bonde", a "santa luz", o "santo dinheiro", "santa bomba atômica", tudo para ele é "santo", a não ser, é obvio, o diabo e o inferno. Você conversará com Doutor Leandro. E ele lhe contará uma história fantástica, cheia de riqueza e de opulência, fala de suas "viagens" à Europa, dos seus amigos e de seus parentes, sempre as pessoas mais ricas da Cidade de Aracaju.

Há, finalmente, Tou Te Ajeitando, um tipo alto, magro, escaveirado, vendedor de mil coisas, inclusive laranjas e garrafas vazias, parecendo-se, enormemente, com John Carradine, o conhecido ator cinematográfico.

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