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Apelo à serenidade | João Oliva - Texto extraído do livro "Sobretudo a Imprensa"


Apelo à serenidade

A nação por estes dias voltou a inquietar-se com os atos de violência e os choques entre estudantes e agentes militares, resultando numa safra de feridos de ambos os lados, além de um estudante e um policial mortos, sendo que dos feridos há alguns em estado que inspira cuidados.

Tais acontecimentos, coincidindo com as comemorações do quarto aniversário da Revolução de março de 1964, estão sendo interpretados pelas autoridades como resultantes de provocações adrede preparadas por agitadores profissionais, infiltrados no meio estudantil, com o fim de hostilizar o Governo e levá-lo a medidas de repressão que prejudiquem, por sua violência, a imagem do atual regime brasileiro.

O motivo imediato destes acontecimentos foi o assassínio de um estudante, no restaurante do Calabouço, pertencente á Universidade Federal do Rio de Janeiro, praticado por um militar, em virtude dos protestos que os estudantes faziam contra o corte de verbas determinado pelo Reitor, e que reduzia as condições do serviço alimentar do referido restaurante. O assassinato foi como um estopim que fez explodir uma carga de ressentimentos da classe estudantil contra o Governo, levando-a às ruas em protestos veementes, clamando vingança e provocando as repressões a que temos assistido nestes dias, envolvendo inclusive vários parlamentares. Disto se conclui que a prudência e a serenidade são virtudes que andam afastadas deste País e, por isto, sua marcha para o progresso e para o futuro está sendo bem penosa.

Se o Governo está convencido de que a classe dos estudantes está infiltrada de agitadores, deve recomendar aos seus agentes policiais o máximo de prudência, toda vez que estes tiverem de interferir para garantir a ordem no meio estudantil e nunca darem pretexto para a ação deletéria dos tais agitadores. A violência policial é um terrível excitante para a juventude que, por sua própria impulsividade, ama o perigo e se torna presa fácil dos que exploram os seus sentimentos. Por isso a serenidade e a força moral é que devem presidir, sobretudo, as relações entre o Governo e os estudantes.

Por outro lado, os estudantes que sempre alegam os altos interesses da Pátria como justificativa para sua ação, devem também convencer-se de que esses interesses não são beneficiados pelo tumulto e pela violência. A democracia brasileira, em virtude de fatores sociológicos que bem conhecemos, só progredirá em ambiente de calma e debate sereno. Antes do atual Governo, tivemos um período longo de experiência da agitação e dos tumultos que no fim só trouxeram uma reação violenta para a restauração do equilíbrio, estabelecendo, em seguida, um período de sufocação, inclusive de movimentos democráticos. Este período vai serenando e se abrindo para perspectivas liberais, com o Governo atual, Os estudantes não devem contribuir para um retrocesso.

`Diário de Aracaju", 03 de abril de 1968.




João Oliva faleceu em 03 de abril de 2019

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Pascoal Maynard - Jornalista