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  • Pascoal Maynard

ANOTAÇÕES SOBRE O FIM DO MUNDO Texto de Luciano Correia.


ANOTAÇÕES SOBRE O FIM DO MUNDO

Em condições normais de temperatura e pressão, só a literatura salva. Só ela nos socorre de um mundo modorrento. Ainda mais nos tempos em que ele mesmo, o mundo como ele é, nos ameaça com o velho clichê: ruim com ele, pior sem ele. De modo que, para me acompanhar na solidão compulsória do vírus do fim do mundo, convidei novamente ele, que já vem frequentado muito minha casa nos últimos anos. Marcelo Mirisola e seu último (ou mais recente): Hosana na Sarjeta. Para o distinto público, ofereço esses aperitivos:

"A questão é a seguinte. Em Paulinha caía bem a figura da puta triste, era como se aquela garota de vinte e poucos anos incorporasse a tristeza do mundo quando olhava de dentro dos seus olhos para os olhos de quem lhe pedisse um cigarro, um dedo de prosa ou socorro, e o engraçado é que os incautos, no final das contas, seguiam esse roteiro: cigarro, prosa, socorro. Não foi diferente comigo. Ela absorvia os despojos e as esperanças de quem a solicitava, engolia tudo. Daí emergia sua majestade.

Num belo dia, Paulinha disse que precisava conversar seriamente comigo. Explicou-me que recebia cinco entidades; agora, só lembro da cigana Sarah e de outra chamada tia Alzira, a dengosa. Acho que nem o Fernando Pessoa incorporava tanta gente. O problema é que, por conta de sua quíntupla personalidade, às vezes ela "estava mas não estava" diante de mim... e eu poderia "estar mas não estar" diante de Sarah, a cigana, de tia Alzira e sabe-se lá de quem mais.

Uma noite, Paulinha Denise bebeu além da conta. A cigana Sarah manifestou-se pela primeira vez. baixou majestática e implacável, à queima roupa: - Você nunca vai amar ninguém nessa vida. Ainda bem que Paulinha havia me prevenido. Safo, respondi na lata: - Tá certo, cigana. Mas agora vou te comer, vira de lado aí."

"Ela aferiu a ereção e depois nos grudamos num beijo de língua. No meio do beijo - de olhos fechados, juro - ocorreu-me o seguinte: 'incorporação por incorporação, sou mais a Marisete'. Que, além de ser meu gênio particular, sempre foi parceiro nas merdas em que nos metemos, e nunca me renegou, nem jamais entregaria a guarda prum Paulo Coelho ou pra dona Zíbia Gasparetto em horário comercial.

"Pensei comigo: 'Ganhei na lábia, ela tem uma bunda branca, redonda e macia, é engraçada e a breguice dela, até o chapeuzinho de poodle, dentro do contexto, tem lá o seu élan, porra!, ela não sabe que eu sou escritor... nunca leu Dostoiévski e nunca vai ler Cioran, o negócio de Paulinha Denise é dona Zíbia Gasparetto. Ah, obrigado, meu Deus. Uma mulher que jamais vai encher o saco com Clarice Lispector e Amélie Poulain! Caraio, tô livre da ficção se misturando com a realidade!

Paulinha era brega, mas tinha majestade. Uma garota bacana, inteligente, meio abilolada e muito gostosa. A Capitu mareada que tanto pedi a Deus, sem o par de cornos. Agora, diante de tantas novidades, o que mais me incomodava era minha atividade de escritor. Não queria que ela soubesse. Tinha vergonha. Acreditava sinceramente que essa era a raiz de todas as cagadas da minha vida, do acúmulo de todos os erros e infelicidades. Entretanto, eu estava decidido a não mentir, não fazia sentido esconder o lado podre. Se ela quisesse mesmo ser minha mulher, teria de aceitar o pacote completo, eu & meus doze livros publicados. Mesmo porque, se eu não contasse, alguma entidade, digo, algum amigo meu ia aparecer lá em casa e soprar pra ela."

A falência do chamado socialismo real pode ser comprovada amplamente, ao gosto do freguês: por farta literatura, cinema e as próprias ciências sociais. Na União Soviética e na Cortina de Ferro, essa derrocada passou na TV ao vivo, no mundo inteiro, com a queda do muro, o fuzilamento do casal Ceausescu na Romênia, a desintegração da Iugoslávia e o papa João Paulo II cantando de galo pra comemorar uma vitória quase pessoal. De minha parte, assisti à ruína do socialismo real em Cuba, nos três meses em que morei lá, em 1989, embora Cuba tenha muito que ensinar ao mundo e que, em alguns campos importantes da vida, exiba dados impressionantes. Mas no geral a conta fecha negativa, pelo nível de pobreza apresentado pela quase totalidade da população. Socialismo pra isso não serve, e foi isso que fez seu modelo ruir, ensejando, de quebra, o conceito de socialismo real, como se restasse a esperança de um socialismo utópico perfeito.

Continuo com a visão crítica para a vida e o mundo, mas carrego comigo a impressão de que a ideia de socialismo verdadeiro, aquele que faz jus ao nome e à justiça social em si, só funciona na morte. A morte é demonizada desde que largamos o berço e tomamos conhecimento dela, e não é pra menos, afinal, à exceção dos suicidas, ninguém quer largar o osso e a festa que é só o fato de estar por aqui, mesmo em condições desumanas. Bom ou ruim, antes vivo do que morto, não é assim? Mas era na morte que se materializava a única justiça imparcial, cega, certa e segura. Desde remotas eras, reis, príncipes e faraós tentaram driblá-la, ou disfarçar sua sentença inadiável, sem sucesso.

Aqui nas redes leio texto distribuído pelo amigo espanhol Fernando Roqueta, do autor Ramón Barea, que relaciona as principais vítimas das grandes pestes contemporâneas. A Aids, no começo dos anos 80, que matava viados, putas e drogados. A epidemia de Ebola, em 2016, que atingia negros e os que se metessem por esses países exóticos, ou a grande crise de 2008, que era, afinal, uma calamidade contra os pobres. Assim, agora estamos diante de uma ameaça que foi para o coração da vida ocidental e desequilibrou toda a segurança que os donos do mundo ostentavam até então. Diz ainda o autor que, enquanto o problema estava circunscrito à China, todos eram risos e piadas, na suposta certeza de que esses males de tão longe jamais afetariam nosso confortável e seguro modo de vida ocidental. Eis que estávamos todos enganados, minimizando esse monstro que agora nos morde os calcanhares sob nossos lençóis. O medo é de todos, sem distinção, porque é real. Não foram as duas grandes guerras e outras tantas, nem os cracks de bolsas, invasões, saques e genocídios que fizeram o homem pensar duas vezes. Foi uma ameaça real que não dá segurança absolutamente a ninguém e, por isso mesmo, a mais justa de todas, como a morte.

É a partir destas cinzas que retomaremos um mundo novo. Ou não.

Luciano Correia

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